O natal, meu pai, Glaucia e eu.

Escrito por Valter Junior.

J comearam a aparecer na TV e rdio as propagandas alusivas a poca do natal. Eu temia por isso, pois o natal sempre foi uma poca maravilhosa pra mim.

O natal me conquistou bem antes que eu pudesse entender seu significado. Meu pai apesar de, na maioria do tempo, se mostrar pouco afetivo, tinha em seu corao algo que o fazia, na vspera de natal, ir ao centro da cidade comprar presentes pra mim e meus irmos.Era maravilhoso ganhar aqueles velotros, bolas, robozinhos, pinobol e sair na manh do dia 25 pra mostrar para os amigos da vizinhana. Toda a crianada saia com os presentes que ganhara e, no caso dos velotrols, alinhvamos nossas mquinas na rua e partamos para nossas competies de velocidade, deixando atrs de ns nossas mes apavoradas com a rapidez com que corramos e o medo de que cassemos e nos machucssemos, o que quase sempre acontecia e voltvamos ralados pra casa. Mas era muito bom!

Aqueles brinquedos de natal eram preciosos pra mim, pois como meu pai tinha poucos gestos de carinho pra com a gente, eles eram uma prova concreta do afeto dele por ns.

No natal tudo parava, os pais ficavam com a gente em casa, viamos nossos primos, tios e avs. Todos de bom humor, mais pacientes e tolerantes conosco, crianas, do que de costume. As propagandas e programas na TV eram coloridos em minha TV preto e branco. As ruas e lojas enfeitadas e eu morava em Belo Horizonte. Naquele tempo BH era mais humana, despoluda e alegre. E era tambm menos violenta. A porta de minha casa constantemente se abria e entrava algum da vizinhana, um parente ou um amigo. Tinha gente entrando e saindo e raramente ficvamos sozinhos.

Eu era feliz e eu sabia. Quando eu tinha treze anos as celebraes de natal terminaram bruscamente. Meus pais se separaram e a aproximao do primeiro natal aps a separao me angustiava. Apesar de distante, meu pai estava bem e eu passava a integrar uma famlia nova aqui em Braslia, me refiro a igreja. O natal chegou, cantei no coral e participei do culto natalino. Depois, fui a casa de um irmo que me convidou ao me ver sozinho e sem ter pra onde ir. Dali por diante meus natais foram na igreja. Cheguei a enfeitar minha casa com rvore e outras coisas, pois meus irmos mais novos poderiam apreciar tudo aquilo. Eu comprava cartes de natal pra todo mundo e presentes pra famlia. No entanto, sonhava com o natal que um dia comemoraria com meus filhos. E o dia chegou.

Me casei com Jane que no dava muita bola pra enfeites de natal. Vitor chegou e no se ligava muito tambm, mas o melhor estava por vir. Glaucia nasceu e assim que comeou a entender um pouco do que era o natal, vi que havia encontrado a parceira dos meus sonhos pra curtir o natal. Glaucia ganhou da v Edith uma rvore dessas lindas que vendem em lojas. Passamos a enfeit-la com os cartes que recebamos e coisinhas que Glaucia comprava nas lojas de 1,99. Fazamos nossa lista de presentes e separvamos cada presente para cada pessoa da lista. amos aos shoppings ver a decorao natalina e fazer fotos, e nesses passeios viamos tambm o que poderamos acrescentar como enfeite pra nossa casa. Eu colecionava durante o ano msicas natalinas que comeava a tocar de modo que o som enchesse a casa a partir do dia primeiro de dezembro. Comprvamos guloseimas natalinas e fazamos rabanada com a receita do Sr. Vicente.

Na realidade, todos os anos, quando as cigarras comeavam a cantar, eu j comeava a me animar com o fato de que estava chegando o natal.

Nesse ano de 2009, quando ouvi as cigarras cantando, tive vontade de gritar para que parassem, mas achei que elas pudessem estar cantando pra Jesus voltar e no pela aproximao do natal, e assim me consolei e pedi a elas que continuassem.

Quando voltei ao apartamento em que moramos at antes de o Senhor levar minha florzinha amarela, enquanto Jane separava as coisas que amos levar, ouvi algum perguntando a Jane o que devia fazer com uma rvore de natal que encontrar guardada no armrio. Me desesperei naquela hora com o que estava acontecendo, mas pedi a Deus que me ajudasse e em silncio ouvi que a rvore seria jogada fora, pois estava bem velhinha e gasta.

Em maro desse ano Deus levou meu pai, aquele que me fez amar tanto o natal, e em junho levou aquela que fez dos meus natais as melhores pocas de minha vida.E agora?

E agora Glaucia e meu pai conhecem algo infinitamente superior a celebrao do natal. Algo mais belo, saboroso, encantador e real. Eles tem a presena do prprio Cristo. Perto do que eles usufruem, tudo que j usufrui parece pouco, quase nada. No choro por eles, e claro.

A saudade o amor que fica, j disse um garotinho. No sei como ser esse nem meus outros natais, quantos Deus permitir. Tudo que antes era bom, agora doi. Acho que preciso sentir essa dor, sem aprofund-la, mas procurando ameniz-la se possvel.

No repare se eu no atender ao seu convite para celebraes natalinas ou se nesse ano eu no lhe presentear. Sentimentos no se explicam nem se submetem ao frio julgamento da razo. Posso no me conduzir por minhas emoes, mas desprez-las, no. Pessoas que se permitam ter sentimentos, ainda que tristes, hoje em dia so bem difceis de encontrar. Parece que a dureza da vida fez com que a maioria das pessoas desconsidere as coisas do corao e privilegiem os aspectos racionais. Temos assim um cristianismo que propem todo o tempo solues para as dores da vida, mas que no quer se identificar com a dor dos que sofrem. como o mdico que nos v chorando de dor, olha nosso pronturio mdico, prescreve algo, se despede e sai do quarto. Fez o que era racionalmente necessrio, mas ao passar por nosso quarto, no passou por ns, pelo contrrio. Assim, se multiplicam as frases de pretenso consolo do tipo: -- Isso vai passar! Junto com esse tipo de frase pareo ouvir: -- Quando tudo passar, estaremos aqui te esperando. At l, voc segue sem ns. Claro que h excees. No fossem elas, esses anjos que Deus tem enviado, no sei como estaramos. Pudesse, eu me mudaria para a casa ao lado deles.

Tentar escrever o que sinto me ajuda a elaborar tudo isso, me faz ver quem sou e como estou. Lembrar o que Deus escreveu pra mim me faz sempre lembrar de quem Ele e sempre ser. Me faz crer que vale a pena prosseguir apesar da dor.

No mais vou esperar pelo natal, essa celebrao que nem recomendada pela Bblia. Passo a esperar do fundo de minh'alma pela volta de Jesus. Faz muito mais sentido.

Mas no custa pedir, nesse natal me presenteie com suas oraes por Jane e Vitor. Mesmo quando o natal passar, ainda me presenteie assim.

Deus abenoe suas celebraes natalinas, o que desejo de corao. Curta esses momentos tanto quanto eu curti.